#HarrietTubmanAquiTambém

Entre os meses de maio e junho deste ano, o artista gráfico, ilustrador e realizador Leonardo Cata Preta, de Belo Horizonte, lançou em seu perfil pessoal em uma rede social uma belíssima série de ilustrações digitais: notas de 20 reais estampadas não pela fauna brasileira em extinção, mas por mulheres negras de grande personalidade, cuja importância ainda é subestimada em nosso país.

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Lélia Gonzalez, a primeira retratada na série de Leonardo Cata Preta, foi uma antropóloga, professora e ativista do movimento negro

A série recebeu a hashtag #HarrietTubmanAquiTambém, uma menção à recente novidade nas notas de 20 dólares nos Estados Unidos, que passarão a estampar o rosto da ex-escrava e militante da abolição Harriet Taubman.

Tudo começou quando a ONG Women on 20’s publicou uma consulta pública online para escolher uma mulher de grande prestígio nacional que substituísse a figura do presidente Andrew Jackson na nota de 20 US$. A consulta pública foi feita em duas etapas e, no período de dois meses, recebeu um total de 600 mil votos. Com 33,6% de votos (111.328) da segunda etapa, Tubman desbancou Eleanor Roosevelt, ex-primeira-dama, que foi votada por 31,5% dos participantes (111.227). Em terceiro e quarto lugares ficaram a ativista Rosa Parks e a líder Cherokee Wilma Mankiller, respectivamente.

E no Brasil?

A série do ilustrador Cata Preta traz sete mulheres afro-brasileiras estampadas na nota de 20 reais, originalmente ilustrada pelo mico-leão dourado. Em entrevista, Cata Preta fala sobre o simbolismo que a mudança na nota representa: “Talvez isso venha a motivar os movimentos sociais mais progressistas [no Brasil], que defendem ações favoráveis à maior equiparação entre afrodescendentes e brancos em nossa cultura, nas representações e nos símbolos de identificação nacional, como no caso das cédulas de Real”.

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Carolina Maria de Jesus, poeta, estampa a segunda nota da série.

Cata Preta fala um pouco sobre sua pesquisa acerca da iconografia das cédulas de dinheiro brasileiras: “A transição para a representação gráfica dos animais de nossa fauna foi um ganho lúdico, quebrando aquela hegemonia de homens de cera – nenhum deles negros -, militares, estadistas, celebridades de enciclopédia, muito comum nos anos oitenta”.

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Verso da nota mil cruzeiros

Cata relembra que, nos anos 90, a Casa da Moeda estampou a nota de mil cruzeiros com uma gravura de índios Carajás, e diz que “até hoje, é a cédula brasileira que acho mais bonita”. O ilustrador afirma que sua pesquisa “foi mais uma varredura de memória afetiva. O que fiz de fato foi procurar personalidades negras e mulheres e constatei, sem nenhuma surpresa, a majoritária representação iconográfica masculina”.

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Dentre as poucas figuras femininas encontradas em sua pesquisa estão a princesa Isabel, a poeta Cecília Meireles e a figura de uma Baiana na nota de 50 mil cruzeiros. “Ainda assim, não se tratava de uma personalidade, como a princesa ou a escritora. A ‘Baiana’ ganhou espaço como símbolo étnico cultural”, pondera Cata.

Confira abaixo trechos da entrevista exclusiva com o desenhista:

Infância, desenho e técnica de ilustração

“Eu sempre me interessei pelo aspecto das cédulas de dinheiro, desde a infância. Era algo que me fascinava, principalmente por conta do desenho. Todas as vezes que pegava uma nota nova, eu usava a lupa do meu pai para examinar as linhas, admirar e tentar entender como aquilo era feito. Anos mais tarde descobri a técnica da gravura em metal e da litogravura, que são basicamente a origem do sistema de impressão das cédulas.

“A referência dos desenhos que produzi são arquivos fotográficos, pinturas ou ilustrações antigas. Basicamente, são imagens que retratam o rosto das personalidades escolhidas. O processo das ilustrações é todo digital, traçadas e coloridas com um tablet profissional de desenho. De algumas figuras, como a de Dandara dos Palmares, não existem registros fotográficos ou retratos pintados – apenas registros documentais em texto sobre sua aparência. A solução foi compor o retrato a partir de imagens de amigas e parentes negras.

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Dandara dos Palmares, cujo rosto foi desenhado a partir de referências das feições de amigas e parentes negras do ilustrador

A escolha das sete mulheres para a série gráfica

“Num primeiro momento, puxei pela memória mulheres que admirava e que mereciam destaque por sua relevância histórica e por sua popularidade. Depois comecei a pesquisar através de livros, internet e, principalmente, conversando com mulheres que atuam no engajamento e defesa dos negros brasileiros. Minha intenção era cobrir toda a linha histórica da presença negra na construção do país, até os dias de hoje. Infelizmente, me comprometi a produzir apenas sete notas, e então muitas figuras importantes ficaram de fora. Também deixei espaço para uma figura de meu afeto particular, mas que também é muito relevante para a cultura das religiões de matriz africana: a Mãe Maria Conga, uma entidade muito respeitada e querida na Umbanda.

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Mãe Maria Conga, na última nota da série: figura simbólica das religiões afro-brasileiras

Escravidão e racismo no Brasil

“Minha percepção mais forte destes temas vem da vida mesmo, de notar como a cor da pele, o formato do nariz e o tipo de cabelo determinam os espaços em que você é bem-vindo ou não. Perceber como você é tratado de modo diferente desde a escola até a sua inserção profissional, perceber a diferença de tratamento entre um branco e um negro no comércio, no aeroporto, numa blitz policial.

“Eu demorei um tempo até me descobrir negro. A TV, que era a base da formação audiovisual de minha infância – e quase uma segunda educação depois da escola – era praticamente isenta da presença do negro. A publicidade e as peças de entretenimento absolutamente não inseriam os negros como modelos humanos, e isso para mim era o normal. No meu entendimento, o cabelo, o nariz, a pele mais escura eram ‘defeitos’ que às vezes poderiam ser reparados (cresci vendo minhas irmãs modificarem os cabelos para parecerem mais lisos). Meus pais falavam pouco a palavra ‘negro’, mas lembro que loira/loiro dos olhos azuis era uma referência de beleza.

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A terceira nota da série foi estampada por uma das mais ilustres atrizes brasileiras, Ruth de Souza

Racismo na religião

“Outra percepção minha é que fomos educados para temer os cristãos, para esconder nossos rituais em casa, nunca falar sobre nossa religião e sobre nossas práticas ligadas à Umbanda.

“Hoje eu entendo melhor que o racismo no Brasil é cínico, muito velado e altamente dissolvido no idioma, nos hábitos, nas preferências e, principalmente, nos juízos de valor. É óbvio que nosso histórico de escravidão determinou uma relação de valores baseada nas diferenças físicas entre negros e brancos.

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Antonieta de Barros, professora e primeira deputada estadual negra do Brasil, na quinta nota da série
Quem foi Harriet Tubman?

Tubman nasceu entre 1820-1825 e viu sua família ser desfeita pela venda de seus irmãos para diferentes escravagistas. Aos 13 anos foi ferida de tal forma, ao se recusar a ajudar na captura de um escravo em fuga, que sofreu dores de cabeça severas e narcolepsia por toda a vida. Fugiu por sua liberdade com cerca de 25 anos de idade, e por 13 vezes voltou ao Sul dos EUA, resgatando mais de 300 pessoas da escravidão (a rota de fuga ficou conhecida como Underground Railroad, ou “Ferrovia Subterrânea”, em tradução livre).

Tudo isso torna a substituição de Jackson na nota de 20 dólares ainda mais célebre, visto que o sétimo presidente dos EUA, apesar de ter fundado o Partido Democrata, teve uma postura genocida contra os índios norte-americanos e era a favor da escravidão. Além disso, curiosamente, Jackson era contra o o uso do papel como moeda de troca.

De acordo com o jornal Chicago Tribune, em artigo de Heidi Stevens, Tubman foi ainda espiã da União na Guerra de Secessão daquele país; foi enfermeira, tratando os soldados feridos com ervas medicinais que aprendeu com sua mãe; e, em sua fuga, abandonou o marido, que não queria acompanhá-la e que ameaçou entregá-la ao seu “senhor”.

Foi com esta biografia que Harriet Tubman conquistou seu lugar de honra na nota de 20 dólares, conforme anunciado pelo Tesouro Nacional dos EUA em abril deste ano. Com a hashtag #DearMrPresident, a campanha foi lançada em maio de 2015 e direcionada ao presidente Barack Obama.

Por que a nota de 20 dólares?

A escolha da nota de 20 dólares não foi feita à toa. Em 2020, completam-se 100 anos da aprovação da 19ª Emenda à Constituição dos EUA, a partir da qual as mulheres puderam votar. É importante ressaltar, entretanto, que às mulheres afro-americanas só foi garantido o direito pleno ao voto em 1965, pois até essa data, quando foi aprovada a norma federal Voting Rights Act, havia uma taxa a ser paga para votar em alguns estados, o que impedia pessoas de baixa renda – majoritariamente negros(as) – de exercer seu direito. Esta normal federal ajudou a dar real efeito à 15ª Emenda, que garantia que nenhum estado poderia impedir um cidadão de votar baseado em sua cor, raça ou condição de prévia servidão (escravidão). O direito ao voto de afro-americanos libertos foi, inclusive, uma das causas pelas quais Tubman lutou.

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Tubman estampa a nota de 20 dólares americanos, em foto fornecida pela ONG Women on 20’s (AFP/Women on 20’s/Getty Images). Fonte: Chicago Tribune

Fontes:
Quem foi Harriet Tubman, a nova cara da nota de 20 dólares. Disponível em http://epoca.globo.com/tempo/noticia/2016/04/quem-foi-harriet-tubman-nova-cara-da-nota-de-20-dolares.html.

Retrospectiva histórica do direito ao votos nos EUA. Disponível em http://www.direitonet.com.br/artigos/exibir/6218/Retrospectiva-historica-do-direito-ao-voto-nos-EUA.

Women on 20’s. Disponível em http://www.womenon20s.org.

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Publicado por

Lígia Benevides

Lígia Benevides é curta-metragista, designer gráfico, produtora cultural e jornalista. Formada em Jornalismo (2006, UFG), com mestrado em Cinema (2012, UBI, Portugal), trabalha desde 2004 na produção audiovisual, com diversos curtas premiados e mostras de cinema produzidas. Trabalha atualmente como editora de vídeos, designer gráfico, social media e cinegrafista, com foco em comunicação institucional nos últimos dois anos.

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